Kerygma

INTRODUÇÃO AO LIVRO DE GÊNESIS

Posted on: Março 2, 2009

Autor: Uma vez que este livro anônimo integra o Pentateuco unificado, não é possível estabelecer a sua autoria e data à parte da composição daquele “Livro em Cinco Volumes” (“Introdução ao Pentateuco”). As evidências relacionadas ao Gênesis propriamente dito, contudo, sugerem que, como o restante do Pentateuco, Moisés deu ao livro a sua substância essencial e editores posteriores o suplementaram, tudo pela inspiração do Espírito Santo.
Seria arbitrário excluir Gênesis do testemunho do Novo Testamento que afirma ser Moisés (século XV a.C.) o autor do Pentateuco. Mais especificamente, nosso Senhor disse “pelo motivo de que Moisés vos deu a circuncisão” (Jo 7.22; At.15.1), a qual é mencionada somente em Gn 17. Não surpreende que o fundador da teocracia de Israel tenha lançado este fundamento magistral da lei. A narrativa histórica de Gênesis estabeleceu os fundamentos teológicos e éticos da Tora: o relacionamento ímpar de Israel com Deus mediante a aliança (Dt 9.5) e as suas leis singulares (a lei do sábado). Além do mais, desde que os mitos da criação são básicos nas religiões pagãs, é natural que Moisés tivesse incluído um relato da criação em oposição aos mitos pagãos. Este relato constitui-se, ainda, ainda, em alicerce para a lei mediada por Moisés.
O testemunho da própria Bíblia a favor da autoria mosaica é apoiado por informações extrabíblicas. Os onze primeiros capítulos do Gênesis têm muitos paralelos e diferenças propositais com os mitos do antigo Oriente Próximo anteriores à época de Moisés e conhecidos por ele (os relatos da criação mesopotâmicos tais como Enuma Elish e os relatos do dilúvio tais como os encontrados na Epopéia de Atrahasis e na décima primeira tábua da Epopéia de Gilgamesh). Os nomes e os costumes nas narrativas dos patriarcas (caps. 12-50) refletem acuradamente a era em que viveram, sugerindo um autor antigo que dispunha de documentos confiáveis. Os textos de Ebla (século XXIV a.C.) mencionam Ebrium, que pode ser o mesmo Héber de Gn 10.21, e os textos de Mari (século XVIII a.C.) atestam a existência de nomes como Abraão, Jacó e amorreu. A prática de conceder um direito de primogenitura (isto é, de privilégios adicionais para o filho mais velho, 25.5-6, 32-34; 39.3-4; 43.33; 49.3) era difundida no Antigo Oriente Próximo. A venda de uma herança (25.29-34) é documentada em diferentes períodos nesta era. A adoção de um escravo pelo seu senhor (15.1-3) é encontrada em uma carta de Larsa, na antiga Babilônia, e a adoração de Efraim e Manasses por seu avô (48.5) pode ser comparada com uma adoção semelhante de um neto em Ugarit (século XIV a.C.). A doação de uma escrava como parte de um dote e a sua apresentação ao marido pela mulher infértil (16.1-6; 30.1-3) são mencionadas nas leis de Hamurábi (c. 1750 a.C.). Esses e outros fatos semelhantes corroboram a confiabilidade histórica da narrativa de Gênesis.

Data e Ocasião: Considerando as evidências bíblicas e extrabíblicas que relacionam Gênesis e o seu conteúdo a Moisés e a sua era, podemos concluir razoavelmente que o livro remonta ao século XV a.C. Indubitavelmente, por exemplo, desde que Davi (c. 1000 a.C.) compôs o relato da criação de Gn 1 em música (Sl 8), requer-se uma data de composição no segundo milênio para Gn 1. Os leitores devem observar, porém, que embora ocasionalmente apareçam no texto palavras conhecidas somente a partir da metade do segundo milênio, a gramática do Pentateuco foi ocasionalmente atualizada, assim como alguns como alguns nomes de lugares (14.14). Também a lista de reis em 36.31-43 foi aparentemente acrescentada após a época de Saul.
O propósito de Gênesis, a exemplo da sua autoria e data, não pode ser examinado senão com relação ao seu lugar dentro do Pentateuco como um todo (“Introdução ao Pentateuco”). O Pentateuco é uma combinação ímpar de história e lei, uma história que explica as origens de suas leis. Por exemplo, as narrativas de Gênesis explicam o rito da circuncisão (17.9-14), a proibição de comer o músculo ciático (32.32) e a observância do sábado (2.2-3). Ainda mais importante, a sua narrativa apresenta a eleição de Israel por Deus para um relacionamento único mediante a aliança com Deus, a fim de abençoar o mundo caído. Esse relacionamento pactual consiste na promessa feita por Deus aos patriarcas de fazer da sua descendência eleita uma grande nação e no compromisso da nação escolhida em obedecer-lhe para, assim, tornar-se uma luz para os gentios. Gênesis narra as origens dessa nação redentora, retrocedendo aos primórdios da humanidade e do mundo e, assim, do conflito entre o reino de Deus e o reino de Satanás, no qual esta nação haveria de desempenhar um papel crucial.
O título hebraico, conforme o antigo costume de designar os livros pela (s) sua (s) palavra (s), é bereshith, “no princípio”. O título grego, baseado no conteúdo do livro, é gênesis, “origem”. Os dois títulos são apropriados, uma vez que o tema do livro é a origem da história.

Dificuldades de Interpretação: A tensão entre Gênesis e a ciência moderna sobre as origens do universo e dos seres vivos é, em grande parte, resolvida quando se reconhece que ambas as partes falam a partir de perspectivas diferentes. Gênesis preocupasse com quem criou e por quê, não com o como e quando. A ciência não pode responder àquelas questões e Gênesis, em grande parte, mantém silêncio quanto a estas (1.2,5-6,11).
Por cerca de um século, os estudiosos adeptos da “hipótese documentária” têm declarado que Gênesis é uma composição de documentos conflitantes: J (de Javé, “o Senhor”), E (de Elohim, “Deus”), D (de Deuteronomista) e P (de escritor sacerdotal). Muito embora esse esquema ainda seja amplamente aceito, poucos ainda acreditam que esses documentos possam ser usados para reconstruir a história de Israel, uma vez que todos os supostos documentos contêm o que se considera serem matérias “antigas” e “recentes”. Em outras palavras, os quatro alegados documentos de fato compartilham elementos e características que supunha-se pertencerem a apenas uma dessas fontes hipotéticas (p. ex. J contém matéria que supostamente seria encontrada somente em E). É certo que, na composição dos documentos no antigo Oriente Próximo, era comum a combinação de documentos escritos mais antigos, e é provável que o próprio Moisés tenha feito uso delas. Além do mais, muitos estudiosos hoje questionam os critérios usados para identificar essas supostas fontes e enfatizam, ao contrário, a unidade do texto tal como o temos. Por exemplo, o relato do dilúvio, antes apontado como um exemplo clássico da hipótese documentária, é visto hoje como portador de excepcional integridade (6.9-9.29).

Características e Temas: Pelo estudo da estrutura literária de Gênesis, destacam-se os aspectos que seguem. Após o prólogo, Gênesis divide-se em dez partes, cujo início é caracterizado pela fórmula: “Esta é a genealogia (ou história) de”. Esse título é seguido por uma genealogia da pessoa referida na fórmula ou por episódios envolvendo os seus descendentes mais notáveis. Os primeiros três relatos pertencem ao mundo pré-diluviano e os sete últimos ao período posterior ao dilúvio. Os três primeiros relatos formam um paralelo com o quarto, quinto e sexto relatos: a) narrativas sobre o desenvolvimento universal da humanidade na criação e na recriação após o dilúvio (relatos um e quatro, respectivamente); b) genealogia das linhagens da redenção a partir de Sete e Sem (relatos dois e cinco); e c) as narrativas sobre as alianças com Noé e Abraão (relatos três e seis). Os dois pares finais de narrativas expandem a linhagem abraâmica, contrastando os seus filhos rejeitados, Ismael e Esaú (relatos sete e nove), com as histórias sobre os descendentes eleitos, Isaque e Jacó, respectivamente (relatos oito e dez).
A chave para compreensão das narrativas é, geralmente, oferecida em uma revelação que serve de abertura às mesmas: por exemplo, a promessa a Abraão (12.1-3), o sinal pré-natal da rivalidade entre Jacó e Esaú (25.22-23), e os sonhos de José (37.1-11). Uma seção de transição encontra-se ao final dos relatos (p. ex., 4.25-26; 6.1-8; 9.18-29; 11.10-26).
A seção que conclui a última narrativa contém fortes vínculos com o Livro de Êxodo, terminando com um juramento que José obteve dos seus irmãos de que, quando Deus viesse em seu socorro e os reconduzisse a Canaã, levariam consigo o seu corpo embalsamado (50.24-25; Ex 13.19).
O enfoque do livro nas origens de Israel desdobra-se diante de questões que afetam o mundo. Moisés nos diz que, antes que Deus elegesse os patriarcas, os pais de Israel (caps. 12-50), a humanidade afirmou a sua independência de Deus buscando o conhecimento do bem e do mal à parte de Deus e em desafio ao seu mandamento (caps. 2;3). Os seres humanos comprovaram a depravação pela religiosidade de fachada, fratricídio e vingança irrestrita (Caim, cap 4); pela tirania, haréns e os contínuos maus desígnios (os reis pré-diluvinos, 6.1-8); e por erguerem um anti-reino contra o próprio Deus (Ninrode e a torre infame, 10.8-12; 11.1-9). O veredito de Deus de Deus sobre a humanidade permanece: “é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade” (8.21).
Certamente de forma tão maravilhosa e soberana como Deus transformou a escuridão e o vazio por ocasião da criação da terra (1-2) em um habitat glorioso para a humanidade e lhe trouxera descanso (1.3-2.3), assim também Deus soberanamente elegeu em Cristo o seu povo da aliança para derrotar a Satanás (3.15) e para abençoar o mundo depravado (12.1-3). Ele elegeu incondicionalmente os patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, e prometeu fazer da sua descendência eleita a nação destinada a abençoar a terra, uma promessa que acarretava em uma semente, terra e rei eternos (12.1-3,7; 13.14-17; 17.1-8; 26.2-6; 28.10-15). Antes de Jacó nascer e ter praticado o bem ou o mal, Deus o escolheu, e não a Esaú, o seu irmão gêmeo mais velho (25.21-23). Ele escolheu Jacó, apesar deste ter trapaceado o seu irmão, enganado o seu pai e blasfemado contra Deus (27). Deus usou até mesmo os delitos escandalosos de Judá contra Tamar, além do ousado ardil a que ela recorreu, para fazer continuar a linhagem messiânica (38). O Rei celeste demonstrou o seu governo glorioso preservando miraculosamente as matriarcas em haréns pagãos (12.10-20; cap. 20 ) e abrindo os seus ventres estéreis (17.15-22; 18.1-15; 21.1-7; 25.21; 29.31; 30.22). Ele não levou em conta os costumes e tradições quando escolheu o filho mais jovem (Jacó), não o mais velho (Esaú), para herdar benção (25.33). Profecias flagrantes e tipos sutis são testemunhos incontestáveis de que Deus dirige a história. Por exemplo, Noé profetizou a submissão de Canaã a Sem (9.24-26), e o grande êxodo liderado por Moisés foi prefigurado quando Deus libertou Abraão e Sara com riquezas da opressão do Egito (12.10-20).
Deus inclinou o coração dos seus eleitos a confiarem em suas promessas e a obedecerem aos seus mandamentos. Contra toda esperança, Abraão confiou que Deus lhe daria uma descendência incontável e o legislador diz que Deus lhe imputou isso como justiça (15.6). Confiantes nas firmes promessas de Deus, Abraão renunciou aos seus direitos sobre a terra (cap. 13) e Jacó, agora chamado “Israel” e apegando –se em Deus (cap. 22), devolveu simbolicamente o direito de primogenitura a Esaú (cap. 33). No começo da narrativa de José, Judá vendeu José como escravo (37.26-27), mas, no fim, o ex-mercador de escravos dispôs-se a tornar-se um escravo em lugar de seu irmão (44.33-34). Firmado na verdade de que o desígnio gracioso de Deus trouxera o bem a partir de pecados tão atrozes como o assassinato e o tráfico de escravos, José perdoou seus irmãos sem recriminação (45.4-8; 50.24).
O que começou em Gênesis cumpre-se em Cristo. A genealogia iniciada no cap. 5 prossegue no cap. 11 e termina com o nascimento de Jesus Cristo (Mt 1; Lc 3.23-27). Ele é, em última análise, o descendente prometido a Abraão (12.1-3; Gl 3.16). Os eleitos são abençoados nele porque somente ele, por sua obediência ativa e passiva, satisfez as exigências da Lei e morreu em lugar deles. Todos os que são batizados em Cristo e unidos com ele pela fé são descendentes de Abraão (Gl 3.26-29). As arrojadas profecias e as prefigurações sutis em Gênesis mostram que Deus está escrevendo uma história que conduz ao descanso em Cristo. No limiar da profecia bíblica, Noé predisse que os jafetitas encontrariam salvação através dos semitas, uma profecia que se cumpriu no Novo Testamento (9.27), e Deus mesmo proclamou que o descendente da mulher destruiria Satanás (3.15). Este descendente é Cristo e sua Igreja (Rm 16.20). A apresentação da noiva para Adão prefigura a apresentação da Igreja a Cristo (2.18-25; Ef 5.22-32); o sacerdócio de Melquisedeque é como o do Filho de Deus (14.18-20; Hb 7); e assim como o Israel redimido da escravidão no Egito encontrou descanso, subsistência e refúgio na Terra Prometida, a Igreja redimida do mundo amaldiçoado encontra a vida em Cristo (13.15). O paraíso perdido pelo primeiro Adão é restaurado pelo último Adão. Esta história sagrada, unificada assim de forma tão maravilhosa, certifica que o enfoque de Gênesis é Cristo.

Publicado por: Pr. Alexandre R. de Souza
Bibliografia: Bíblia de Genebra

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