Kerygma

JESUS CRISTO COMO O UNIGÊNITO

Posted on: Março 18, 2009

joão 1.1-18; Colossenses 1.15-19; Hebreus 1.1-14
A referência bíblica a Jesus como “o unigênito do Pai” (Jo 1.14) tem provocado grandes controvérsias na história da Igreja. Devido ao fato de Jesus ser chamado também de “o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15), tem-se argumentado que a Bíblia ensina que ele não é divino, e, sim, uma criatura exaltada.

As Testemunhas de Jeová e os Mórmons negam a divindade de Cristo apelando para esses conceitos. É principalmente devido a essa negação da divindade de Cristo que esses grupos são considerados como seitas e não como denominações cristãs.

A divindade de Cristo tornou-se uma questão crucial no século IV, quando o herege Ário negou a Trindade. O principal argumento dele contra a divindade de Cristo antecipou os argumentos atuais das Testemunhas de Jeová e dos Mórmons. Ário foi condenado como herege no Concílio de Nicéia no ano 325 d.C.

Ário alegava que a palavra grega traduzida por “unigênito” significa “acontecer”, “tornar-se”, ou “começar a ser”. Aquilo que é gerado deve ter um início no tempo. Tem de ser finito com relação ao tempo, que é um sinal da condição de criatura. Ser o “primogênito de toda a criação” pressupõe o nível supremo da condição de criatura, uma categoria mais que os anjos, mas não vai além do nível de criatura. Adorar uma criatura é praticar idolatria. Nenhum anjo, nem qualquer outra criatura é digna de adoração. Ário via a atribuição de divindade a Jesus Cristo como uma blasfêmia e rejeição do monoteísmo bíblico. Para Ário, Deus deve ser considerado como “um”, tanto no ser como em pessoa.

O Credo de Nicéia reflete a resposta da Igreja à heresia ariana. Confessa que Jesus era “gerado, não criado”. Nesta fórmula simples a Igreja demonstrava zelo em se proteger contra a idéia de interpretar o termo unigênito significando ou implicando uma condição de criatura.

Alguns historiadores têm falhado em relação ao Concílio de Nicéia, engajando-se na defesa especial ou no exercício de ginástica mental ao fugirem do signifcado claro e simples da palavra grega, unigênito, e da frase “primogênito de toda a criação”. A Igreja, porém, não fugiu arbitrariamente do significado simples desses termos. Havia bases justificáveis para proteger o termo unigênito com o qualificativo “não criado”.

Primeiro, a Igreja estava procurando entender esses termos no contexto total do ensino bíblico concernente à natureza de Cristo. Convencida de que o Novo Testamento claramente atribui divindade a Cristo, a Igreja se pôs contra lançar uma parte das Escrituras contra outra.

Segundo, embora o Novo Testamento fosse escrito na língua grega, a maioria das formas de pensamentos e conceitos está saturada de significados hebraicos. Os conceitos hebraicos são expressos por meio do veículo da língua grega. Este fato soa como uma advertência contra a interpretação muito literal com base nas difíceis nuanças do grego clássico. Assim como João usa o termo logos para referir-se a Jesus, seria um erro saturar esse termo exclusivamente com as idéias gregas associadas ao uso da palavra.

Terceiro, o termo unigênito é usado numa forma modificada no Novo Testamento. Em João 1.14 Jesus é referido como “o unigênito do Pai”. Em algumas traduções, em João 1.18 ele é chamado novamente de o “Filho unigênito”. Existem evidências significativas nos manuscritos que sugerem que o original grego dizia “o Deus unigênito”. Tivesse esse texto sido aceito, acabaria o debate. Entretanto, se tratarmos o texto como redigido “o Filho unigênito”, ainda teremos um modificador crucial. Jesus é chamado o único gerado (gr., monogenais). O prefixo mono no grego é mais forte do que a palavra único em nosso idioma. Jesus é absolutamente singular em sua genitural. Ele é o único gerado. Ninguém ou nenhum outro é gerado no sentido como Jesus o foi. O fato de a Igreja falar sobre Jesus como o eterno unigênito é uma tentativa de fazer justiça a isso. O Filho procede eternamente do Pai, não como criatura, mas como a Segunda Pessoa da Trindade.

O livro de Hebreus, que também refere-se a Jesus como sendo “gerado” (Hb 1.5), talvez seja a epístola que nos fornece a mais elevada Cristologia encontrada no Novo Testamento. O único livro que rivaliza com Hebreus nesse aspecto é o Evangelho de João. É João quem claramente chama Jesus de “Deus”. Também é João quem fala de Cristo como o “unigênito”.

Finalmente, a frase “primogênito de toda criação” deve ser entendida à luz do contexto da cultura judaica do século I. Deste ponto de vista, podemos ver que o termo primogênito refere-se à condição exaltada de Cristo como o herdeiro do Pai. Assim como o filho primogênito geralmente recebia a herança patriarcal, assim Jesus, como o divino Filho, recebe o reino do Pai como sua herança.

Esboço:

  1. O fato de Jesus ser chamado “o unigênito do Pai” e de “primogênito de toda a criação” tem criado controvérsias na história da Igreja quanto à sua divindade.
  2. Testemunhas de Jeová e os Mórmons usam tais passagens para negar a divindade de Cristo.
  3. O Credo de Nicéia claramente expressa que Jesus era “gerado, não criado”. Essa distinção cuidadosa era um reflexo da afirmação do Novo Testamento da divindade de Cristo.
  4. Jesus é chamado “o unigênito” do Pai. Jesus é o único gerado do Pai, não como criatura, mas como o eterno Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Trindade.
  5. O termo primogênito deve ser entendido à luz do contexto do judaísmo do século I. Jesus é o “primogênito de toda a criação” no sentido em que ele é o herdeiro de tudo aquilo que pertence ao Pai.

Publicado por: Pr. Alexandre R. de Souza
Bibliografia: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R. C. Sproul/ Editora Cultura Cristã

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