Kerygma

Archive for the ‘Apologética’ Category

joão 1.1-18; Colossenses 1.15-19; Hebreus 1.1-14
A referência bíblica a Jesus como “o unigênito do Pai” (Jo 1.14) tem provocado grandes controvérsias na história da Igreja. Devido ao fato de Jesus ser chamado também de “o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15), tem-se argumentado que a Bíblia ensina que ele não é divino, e, sim, uma criatura exaltada.

As Testemunhas de Jeová e os Mórmons negam a divindade de Cristo apelando para esses conceitos. É principalmente devido a essa negação da divindade de Cristo que esses grupos são considerados como seitas e não como denominações cristãs.

A divindade de Cristo tornou-se uma questão crucial no século IV, quando o herege Ário negou a Trindade. O principal argumento dele contra a divindade de Cristo antecipou os argumentos atuais das Testemunhas de Jeová e dos Mórmons. Ário foi condenado como herege no Concílio de Nicéia no ano 325 d.C.

Ário alegava que a palavra grega traduzida por “unigênito” significa “acontecer”, “tornar-se”, ou “começar a ser”. Aquilo que é gerado deve ter um início no tempo. Tem de ser finito com relação ao tempo, que é um sinal da condição de criatura. Ser o “primogênito de toda a criação” pressupõe o nível supremo da condição de criatura, uma categoria mais que os anjos, mas não vai além do nível de criatura. Adorar uma criatura é praticar idolatria. Nenhum anjo, nem qualquer outra criatura é digna de adoração. Ário via a atribuição de divindade a Jesus Cristo como uma blasfêmia e rejeição do monoteísmo bíblico. Para Ário, Deus deve ser considerado como “um”, tanto no ser como em pessoa.

O Credo de Nicéia reflete a resposta da Igreja à heresia ariana. Confessa que Jesus era “gerado, não criado”. Nesta fórmula simples a Igreja demonstrava zelo em se proteger contra a idéia de interpretar o termo unigênito significando ou implicando uma condição de criatura.

Alguns historiadores têm falhado em relação ao Concílio de Nicéia, engajando-se na defesa especial ou no exercício de ginástica mental ao fugirem do signifcado claro e simples da palavra grega, unigênito, e da frase “primogênito de toda a criação”. A Igreja, porém, não fugiu arbitrariamente do significado simples desses termos. Havia bases justificáveis para proteger o termo unigênito com o qualificativo “não criado”.

Primeiro, a Igreja estava procurando entender esses termos no contexto total do ensino bíblico concernente à natureza de Cristo. Convencida de que o Novo Testamento claramente atribui divindade a Cristo, a Igreja se pôs contra lançar uma parte das Escrituras contra outra.

Segundo, embora o Novo Testamento fosse escrito na língua grega, a maioria das formas de pensamentos e conceitos está saturada de significados hebraicos. Os conceitos hebraicos são expressos por meio do veículo da língua grega. Este fato soa como uma advertência contra a interpretação muito literal com base nas difíceis nuanças do grego clássico. Assim como João usa o termo logos para referir-se a Jesus, seria um erro saturar esse termo exclusivamente com as idéias gregas associadas ao uso da palavra.

Terceiro, o termo unigênito é usado numa forma modificada no Novo Testamento. Em João 1.14 Jesus é referido como “o unigênito do Pai”. Em algumas traduções, em João 1.18 ele é chamado novamente de o “Filho unigênito”. Existem evidências significativas nos manuscritos que sugerem que o original grego dizia “o Deus unigênito”. Tivesse esse texto sido aceito, acabaria o debate. Entretanto, se tratarmos o texto como redigido “o Filho unigênito”, ainda teremos um modificador crucial. Jesus é chamado o único gerado (gr., monogenais). O prefixo mono no grego é mais forte do que a palavra único em nosso idioma. Jesus é absolutamente singular em sua genitural. Ele é o único gerado. Ninguém ou nenhum outro é gerado no sentido como Jesus o foi. O fato de a Igreja falar sobre Jesus como o eterno unigênito é uma tentativa de fazer justiça a isso. O Filho procede eternamente do Pai, não como criatura, mas como a Segunda Pessoa da Trindade.

O livro de Hebreus, que também refere-se a Jesus como sendo “gerado” (Hb 1.5), talvez seja a epístola que nos fornece a mais elevada Cristologia encontrada no Novo Testamento. O único livro que rivaliza com Hebreus nesse aspecto é o Evangelho de João. É João quem claramente chama Jesus de “Deus”. Também é João quem fala de Cristo como o “unigênito”.

Finalmente, a frase “primogênito de toda criação” deve ser entendida à luz do contexto da cultura judaica do século I. Deste ponto de vista, podemos ver que o termo primogênito refere-se à condição exaltada de Cristo como o herdeiro do Pai. Assim como o filho primogênito geralmente recebia a herança patriarcal, assim Jesus, como o divino Filho, recebe o reino do Pai como sua herança.

Esboço:

  1. O fato de Jesus ser chamado “o unigênito do Pai” e de “primogênito de toda a criação” tem criado controvérsias na história da Igreja quanto à sua divindade.
  2. Testemunhas de Jeová e os Mórmons usam tais passagens para negar a divindade de Cristo.
  3. O Credo de Nicéia claramente expressa que Jesus era “gerado, não criado”. Essa distinção cuidadosa era um reflexo da afirmação do Novo Testamento da divindade de Cristo.
  4. Jesus é chamado “o unigênito” do Pai. Jesus é o único gerado do Pai, não como criatura, mas como o eterno Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Trindade.
  5. O termo primogênito deve ser entendido à luz do contexto do judaísmo do século I. Jesus é o “primogênito de toda a criação” no sentido em que ele é o herdeiro de tudo aquilo que pertence ao Pai.

Publicado por: Pr. Alexandre R. de Souza
Bibliografia: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R. C. Sproul/ Editora Cultura Cristã

João 1.1-14; Gálatas 4.4; Filipenses 2.5-11; Hebreus 2.14-18; Hebreus 4.15

Uma das doutrinas mais vitais do Cristianismo histórico é que o Deus Filho tomou uma verdadeira natureza humana. O grande Concílio de Calcedônia, no ano 451 da era cristã, afirmou que Jesus é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, e que suas duas naturezas são assim unidas, sem mistura, confusão, separação ou divisão, cada natureza retendo seus próprios atributos.

A humanidade real de Jesus tem sido atacada principalmente em dois aspectos. A igreja primitiva teve de lutar contra a heresia do docetismo, a qual ensinava que Jesus não tinha um corpo físico real ou uma verdadeira natureza humana. Essa doutrina argumentava que Jesus apenas “parecia” ter um corpo, mas na realidade ele era um espécie de ser fantasmagórico. Justamente contra isso, João declarou veementemente que aquele que negasse que Jesus realmente se manifestou na carne era do Anticristo.

A outra grande heresia que a Igreja rejeitou foi a heresia do monofisismo, a qual argumentava que Jesus não tinha duas naturezas, mas apenas uma. Essa natureza única não era totalmente divina nem totalmente humana, mas um misto de ambas. Essa natureza era chamada “teantrópica”. A heresia do monofisismo defende uma natureza deificada ou uma natureza divina humanizada.

Formas sutis de monofisismo têm ameaçado a Igreja em todas as gerações. A tendência segue na direção de permitir que a natureza humana seja engolfada pela natureza divina de tal maneira que as limitações reais da humanidade de Jesus são removidas.

Temos de distinguir entre as duas naturezas de Jesus sem separá-las. Quando Jesus demonstrava fome, por exemplo, vemos isso como uma manifestação da natureza humana, não da divina. O que se diz sobre a natureza divina ou da natureza humana pode ser afirmado com relação à pessoa. Na cruz, por exemplo, Cristo, o Deus-homem, morreu. Isso, entretanto, não quer dizer que Deus morreu na cruz. Embora as duas naturezas permanecessem unidas depois da ascensão de Cristo, ainda temos de distinguir as natuarezas, considerando o modo como ele está presente conosco. Entretanto, em sua natureza divina, Cristo nunca está ausente de nós.

A humanidade de Cristo é como a nossa. Ele tornou-se homem “por nossa causa”. Ele entrou em nossa situação para agir como nosso Redentor. Tornou-se nosso substituto, tomando sobre si nossos pecados, a fim de sofrer em nosso lugar. Ele também tornou-se nosso campeão, cumprindo a Lei de Deus em nosso favor.

Na redenção, existe uma dupla mudança. Nossos pecados são atribuídos a Jesus. Sua justiça é atribuída a nós. Ele recebe o castigo merecido pela nossa humanidade imperfeita, enquanto nós recebemos a bênção devida à sua humanidade perfeita. Em sua humanidade, Jesus tinha as mesmas limitações comuns a todos os seres humanos, exceto que ele era sem pecado. Em sua natureza humana, ele não era onisciente. Seu conhecimento, embora fosse acurado e exato, não era infinito. Havia coisas que ele não sabia, como por exemplo, o dia e a hora de sua volta à Terra. É claro que em sua natureza divina ele é onisciente e seu conhecimento é ilimitado.

Como ser humano, Jesus estava restrito pelo tempo e espaço. Como todo ser humano, ele não podia estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Ele suava. Sentia fome. Chorava. Sofria dores. Ele era mortal, capaz de sofrer a morte. Em todos esses aspectos Jesus era como nós.

Esboço:

  1. Jesus tinha uma verdadeira natureza humana que estava perfeitamente unida à sua natureza divina.
  2. O docetismo dizia que Jesus não tinha um corpo físico real.
  3. A heresia do monofisismo envolve a deificação da natureza humana, de modo que a humanidade de Jesus é eclipsada pela sua divindade.
  4. A humanidade de Cristo é a base da sua identificação conosco.
  5. Jesus tomou nossos pecados sobre si e partilha conosco sua justiça.
  6. A natureza humana de Jesus tinha as limitações mormais do ser humano, exceto que ele era sem pecado.

Publicado por: Pr. Alexandre R. de Souza
Bibliografia: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R. C. Sproul/ Editora Cultura Cristã

Textos: Jó 11.7-9; Jeremias 23.23-24; Atos 17.22-31

Projeção astral não passa de fantasia. Pessoas podem afirmar que podem deixar seus corpos e fazer uma viagem à Califórnia ou à Índia e voltar sem precisar usar um trem, avião ou navio. Na verdade estão iludidas ou estão tentando enganar os outros com tais alegações. Mesmo que a alma ou o espírito de uma pessoa pudesse se “projetar” dessa maneira e “perambular” pelo planeta, tais viagens só poderiam incluir um lugar de cada vez.

Quando falamos da onipresença de Deus geralmente queremos dizer que sua presença está em todos os lugares. Não existe um lugar onde Deus não esteja. Mesmo assim, sendo espírito, Deus não ocupa um lugar, no sentido físico em que os objetos ocupam lugar no espaço. Deus não tem propriedades físicas que ocupem lugar no espaço. A chave para entender esse paradoxo é pensar em termos de outra dimensão. A barreira entre Deus e nós não é uma barreira de tempo ou espaço. Para se encontrar com Deus, não existe um “aonde” ir ou um “quando” vai acontecer. Estar na presença imediata de Deus é entrar numa outra dimensão.

A idéia de onipresença não só se relaciona com os lugares onde Deus está, mas também o quanto dele está presente naquele determinado lugar. Deus não só está presente em todos os lugares, mas Deus está totalmente presente em cada lugar. Isso é chamado “sua imensidade”. Os crentes que moram em São Paulo experimentam a plenitude da presença de Deus, enquanto que os crentes que moram em Moscou experimentam a mesma presença. Sua imensidade, pois, não se refere ao seu tamanho, mas à sua capacidade de estar totalmente presente em todos os lugares.

A doutrina da onipresença de Deus com razão nos enche de perplexidade. Além da reverência que ela gera, essa doutrina também se revela confortadora. Podemos sempre ter certeza da atenção integral de Deus. Nunca vamos ter de esperar na fila ou marcar um horário para estar com Deus. Quando estamos na presença de Deus, ele não está preocupado com os acontecimentos do outro lado do planeta. Esta doutrina evidentemente, de maneira alguma é confortante para o não-crente. Não existe lugar para se esconder de Deus. Não existe nenhum cantinho do universo onde Deus não esteja. O ímpio que está no inferno não está separado de Deus – está separado somente de sua benevolência. A ira de Deus está constantemente com ele.

Davi, que muitas vezes exaltou a glória da onipresença de Deus nos Salmos, nos dá um resumo poético desta doutrina:

Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá.” (Salmo 139.7-10).

Esboço:

  1. Somente um Espírito infinito pode ser onipresente.
  2. Deus não é limitado pelo tempo e espaço. Seu Ser transcende o tempo e o espaço.
  3. A onipresença de Deus inclui sua imensidade, pela qual ele pode estar presente em sua plenitude em todo tempo, em todos os lugares.
  4. A onipresença de Deus é um conforto para o crente e um terror para o não crente.

publicado por: Pr. Alexandre R. de Souza

Bibliografia: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R. C. Sproul/ Editora Cultura Cristã

TEOLOGIAS” DA TEOLOGIA DA IGREJA HOJE

Pois vai chegar o tempo em que as pessoas não vão dar atenção ao verdadeiro ensinamento, mas seguirão os
seus próprios desejos …

(2 Timóteo 4.3).

A “TEOLOGIA DO ABRACADABRA” – Há, hoje, uma forte tendência de se entender o poder de Deus, como sendo algo semelhante às artes mágicas humanas. Em conseqüência disso, muitos passam a imaginar receberem benção de Deus como num passe de mágica.

Esta crença se caracteriza por se imaginar palavras-chaves ou objetos encantados que liberam o poder de Deus automaticamente. Deus é visto por muitos, como sendo um gênio da lâmpada, e a vida cristã é reivindicar ao gênio o cumprimento dos nossos desejos.

Tudo acontece num passe de mágica – só falta à varinha mágica, mas em compensação, tem trombeta, milho ungido, vassoura sagrada que varre demônios, rosa ungida, água milagrosa, sabonete que purifica, descarrego etc.

A “TEOLOGIA DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS” – Outro forte marca da teologia da igreja hoje, é a chamada Teologia da Prosperidade, que afirma que, quem tem fé, é rico e sadio.

Jesus morreu na cruz do calvário, para sermos economicamente estáveis. Um cântico muito cantado por nós ilustra bem isso: “Tudo que Jesus conquistou na cruz, é direito nosso e nossa herança”.

Existe até a “corrente da vida regalada”, onde se pede a Deus riquezas, como as de Salomão. Assim, o paraíso é, na terra, uma vida sem problemas, sem enfermidades, com carro “0 Km” na garagem … que maravilha!

A “TEOLOGIA DO SUPER-HOMEM” – Outra tendência, é de se tomar certos nomes, como se fossem gurus da fé; são vistos como semideuses.

A prova disso, é que nem os títulos são suficientes para designá-los.
Pastor ou reverendo não servem mais; agora são apóstolos, e daí é um passo para se pleitear o de Messias.
Estamos numa era de supervalorização do homem, do antropocentrismo, e não faltam, ao nosso redor, os animadores de auditórios, os leiloeiros de bênçãos, que acabam virando, ao invés de mártires da fé, ídolos.
A “TEOLOGIA DA ONDA” – Está é outra tendência forte em nossos dias: a dos modismos evangélicos.
De repente, surge algo novo, e passa a ser a sensação do momento. Acontece num lugar, e vira regra para atestar a presença de Deus.

De onda em onda, nosso povo segue em busca de novidades, nem sempre preocupado com o que é bíblico, mas sim com o que é novo. Como por ex., a teologia do sopro, do tombo, dos urros do “espíritos” etc.
A “TEOLOGIA DO AQUI E AGORA” – Se por algum tempo, no passado, a igreja esteve projetando suas esperanças no futuro, agora tem se tornado imediatista e pragmáticas.
A formula para atrair os pecadores, é dizer não o que Deus fará ou nós dará em uma vida porvir, e sim, dizer o que pode ser feito hoje, aqui e agora. Se, no passado, a igreja tirou o pé da terra, agora tem tirado a cabeça do céu e, em nome desse imediatismo, tem levado as pessoas a estarem mais interessadas em servir-se de Deus, do que servir a Deus.

Por isso se faz necessário questionarmos bíblicamente tudo aquilo que vem sendo dito, para não incorrermos nas armadilhas de satanás. Que Deus nos dê discernimento!

Pr. Alexandre R. de Souza

Manipulando o Jesus histórico

De modos diferentes, em épocas diferentes, culturas diferentes têm tentado distorcer o Jesus simples dos evangelhos. Desde o Jesus dos evangelhos apócrifos passando pelo Jesus sem carne e osso, desprovido de matéria, dos gnósticos do primeiro século da era cristã e atualmente o Jesus místico da Nova Era, nada mais são que reações da cultura da época, que se recusa a aceitar o Homem de Nazaré, exatamente como ele é. Cada vez que o espírito de uma raça diferente entrou no espírito do evangelho, tentou manipular a figura daquele que é o Senhor dessa mesma história, algumas vezes a ponto de ela ficar deformada e irreconhecível.
Portanto, em nada nos espanta o fato de a invasão do liberalismo no Ocidente ter levado muitos a alterar novamente as características do Senhor. Para tanto, esses movimentos, encabeçados por acadêmicos descomprometidos com a fé cristã, buscou utilizar-se de hipóteses e documentos duvidosos sobre Jesus para tecer um amontoado de informações que, longe de acrescentar algo ao conhecimento dele, distorceu-o completamente.

O Dr. Otto Borchet, em seu livro O Jesus histórico, fez um excelente comentário sobre as muitas tentativas históricas de distorcer a imagem de Jesus, conforme ela nos é fidedignamente mostrada por Mateus, Marcos, Lucas e João, testemunhas oculares ou contemporâneas dele. “Indubitavelmente […] cada geração que se aproxima da figura de Jesus novamente, tem tentado retificar essa imagem no que acha nela deficiente”. A verdade, porém, é que qualquer tentativa de acrescentar algo ao Jesus bíblico falha.

Um outro livro que apresenta os principais estudos acadêmicos atuais dos críticos para tentar reconstruir o Jesus histórico foi publicado em 1998 por Mark Alan Powell. Powell, apresenta um apanhado sobre os vários retratos do “Jesus Histórico” apresentado pelos críticos através da história. Assim, R. Horsley que vê Jesus como um profeta, G. Vermes como um judeu carismático, Morton Smith como um mágico, B. F. Witherington como um sábio judeu e F. G. Downing como um filósofo cínico, são alguns que fazem coro com os críticos do “The Jesus Seminar”, J.D.Crossan, M. Borg, E. P. Sanders, J. P. Meier e N. T. Wright.
Contudo urgi esclarecer que quando falamos em “Jesus histórico”, estamos na verdade tratando de uma expressão não muito definida.
O que seria o Jesus histórico? É o mesmo Jesus da Bíblia? Caso seja, até que ponto? Trataremos disso logo abaixo.

O Jesus histórico versus o Jesus real

No entanto, devemos levar em consideração uma distinção muito significativa levantada pelo crítico John P. Meier, em seu livro “Um Judeu Marginal”, qual seja: qual a diferença entre o Jesus histórico e o Jesus real? Existe de fato tal diferença?
Meier diz que o Jesus histórico não é o Jesus real. Ele explica que a noção de real é enganosa, pois existe varias gradações da noção de real. Não podemos nos referir à realidade total de uma pessoa em tudo que ela pensou, sentiu, experimentou, fez e disse. Mesmo com todos os documentos oficiais disponíveis não se poderia descobrir a realidade total de uma pessoa. O máximo que o historiador ou biógrafo poderia montar era um quadro “razoavelmente completo” da personagem.

Os relatos que os evangelhos apresentam de Jesus é justamente isso. Os quatro evangelistas se detêm somente nos três últimos anos de sua vida. Apenas dois deles: Mateus e Lucas falam sobre sua infância, mesmo assim de modo bem limitado. A maioria dos atos e palavras de Jesus, assim como os chamados anos obscuros de sua vida, ficaram vedados por um véu de mistério. O apóstolo João confirma esta verdade ao narrar em seu evangelho: “muitas outras coisas há que Jesus fez; as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que nem ainda no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem.” (João 21.25)

Portanto o Jesus real mesmo com todos os registros disponíveis sobre ele foge à nossa verificação total. Mas não pense que Jesus é o único que enfrenta tal dificuldade, a problemática desta abordagem se estende a todos os outros personagens famosos da história como Sócrates, Platão, Augusto, Alexandre e outros. Mas longe está, disso ser um obstáculo à existência de Jesus. Não absolutamente. O que estamos tratando somente é sobre a diferença empírica que se impõe entre o Jesus real e o Jesus da história. As informações que subsistiram sobre Jesus, obviamente, nunca conseguirão refletir a totalidade de sua vida. Não obstante, podemos conhecer o “Jesus histórico”.

O exegeta D.A Carson resume a questão com muita propriedade: “Portanto, o fato de que não é possível reconstruir uma vida detalhada de Jesus com base nos evangelhos sinóticos não põe de modo algum em dúvida os evangelhos como fontes históricas exatas. Devem ser julgados por aquilo que de fato nos dizem, não pelo que não nos dizem”

A busca pelo Jesus histórico

Muito embora tenhamos falado que o Jesus real não pode ser resgatado pela pesquisa histórica, no entanto, o Jesus histórico pode apresentar fragmentos do Jesus real. O Jesus histórico é aquela personagem reconstruída pelas informações que chegaram até nós através de vários documentos históricos. Alguém poderia nos taxar de fundamentalistas, mas cremos que os poucos registros deixados nos evangelhos sobre Jesus é o suficiente para nosso conhecimento. Na verdade João nos fornece de maneira resumida o propósito dos registros evangélicos sobre Jesus: “estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20.31)

A importância da busca pelo Jesus histórico

Acredito que muitos não considerariam de alguma importância uma pesquisa pelo Jesus da história se contentando apenas com o Cristo da fé. Infelizmente a disposição em pesquisar historicamente Jesus parte em geral de críticos agnósticos que do que de cristãos ortodoxos. Geralmente para esses últimos é de pouca relevância tal busca, pois o que vale mesmo é o Cristo da fé. No entanto, esta posição é um grande paradoxo, pois o Jesus da fé não pode ser desvinculado do Jesus da história. A fé cristã não é um salto no escuro, é em suma a aceitação de alguém real que viveu no espaço-tempo. Essa busca ressalta que a fé cristã não é uma vaga atitude existencial ou mera maneira de ser. Mas sim, que existe um conteúdo específico na fé cristã, ligado a eventos históricos especiais. Esta necessidade foi sentida pelos seguidores de Bultmann que acabou por isso formando uma nova escola. Bultmann cria que os fatos históricos quanto a Jesus eram irrelevantes, pois o que valia mesmo era o Cristo da fé e nosso encontro pessoal com ele, mesmo que este Cristo seja o Cristo emergido das supostas lendas e mitos criados pelos cristãos primitivos, segundo a opinião dele. Contudo, uma nova busca teve inicio, pois seus discípulos perceberam que “um rompimento tão completo entre a fé cristã e os liames históricos deixaria a igreja à deriva e sem condições de reivindicar absolutamente qualquer coisa para si” (Carson p.59)

Gregory A. Boyd, Ph.D refutando os argumentos do “Seminário de Jesus”, acrescenta: “A verdade teológica baseia-se na verdade histórica” (Em Defesa de Cristo p. 165)

A historicidade de Jesus

Lá pelo século XIX, alguns críticos como Bruno Bauer chegou a incrível conclusão de que Jesus nunca existiu. Hoje, talvez, nem mesmo os críticos mais ferozes como o “The Jesus Seminar”, ousam negar a existência histórica de Jesus Cristo, haja vista os muitos documentos a respeito de sua pessoa. Negar a passagem de Jesus pela terra seria hoje como assinar um atestado de obtusidade histórica ou se declarar descontextualizado com as novas descobertas.

Apesar da abundancia de provas que temos sobre Ele, muitos estudiosos amadores levados pelo preconceito e pouca seriedade científica, especulam dizendo que não existem comprovações concretas da existência de Jesus fora dos evangelhos. Quando não, saem com o disparate de que só existem duas menções ao nome de Jesus fora dos livros religiosos (N.T e os escritos cristãos dos pais da igreja), os quais se limitariam a Flávio Josefo e Plínio. Isto mostra o tom preconceituoso e parcial com que tais estudiosos tratam os documentos cristãos históricos. Só porque a maioria dos testemunhos históricos sobre a existência de Jesus são de cunho religioso já são postos sob suspeita, tipo “culpado até que se prove o contrario”.

É claro que para quem conhece um pouco de história isso não passa de uma falácia.
Fora os próprios Evangelhos e os escritos dos Pais da Igreja, temos ainda muitos outros do primeiro e do segundo século que mencionam Jesus Cristo. Podemos dividi-lo em dois grupos: os documentos provindos de fontes judias e o de fontes pagãs. Ei-los em ordem:

Fontes judaicas:

Flávio Josefo

Josefo foi contemporâneo de Cristo viveu até 98 d.C. É considerado um dos melhores historiadores antigo. Suas obras sobre o povo judeu é uma preciosidade histórica da vida helênica no primeiro século. Em seu livro, “Antiguidades Judaicas”, ele faz algumas referências a Jesus. Em uma delas, ele escreve:

Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeus e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos maravilhosos prognósticos dos profetas” (Josefo, “Antiguidades Judaicas” XVIII,3,2).

O texto acima é uma versão árabe, e talvez é a que mais chegue perto do original. Muitos colocam em dúvida este texto dizendo ser interpolação de um escritor cristão. Alegam que Josefo, na qualidade de judeu, nunca iria se reportar a Jesus desta maneira. Mas parece que não há motivos fortes para isso. A verdade é que cada vez mais eruditos hoje em dia estão inclinados a aceitar esta versão do texto como fidedigno, embora admitam pequenas interpolações em algumas partes como a referência sobre a ressurreição, e a declaração do messianismo.

Talmude:

A Encyclopaedia Britannica mencionando os talmudes judaicos como fontes históricas sobre Jesus, finaliza o assunto da seguinte maneira:

A tradição judaica recolhe também notícias acerca de Jesus. Assim, no Talmude de Jerusalém e no da Babilônia incluem-se dados que, evidentemente, contradizem a visão cristã, mas que confirmam a existência histórica de Jesus de Nazaré.”
A “contradição” mencionada pela enciclopédia é o fato dos judeus acusarem Jesus de magia.

Na véspera da Páscoa eles penduraram Yeshu […] ia ser apedrejado por prática de magia e por enganar Israel e fazê-lo se desviar […] e eles o penduraram na véspera da Páscoa.” (Talmude Babilônico, Sanhedrim 43a)
Estes relatos da crucificação estão de pleno acordo com os evangelhos (cf. Lucas 22,1; João 19,31).

Fontes Pagãs:

Plínio

No século II, quando o cristianismo começou a atravessar as fronteiras do Império, os cristãos começaram a chamar mais a atenção dos pagãos. A difusão do cristianismo foi tão profusa que chegou a ser tema de uma correspondência política entre Plínio, o Jovem, procônsul na Ásia Menor, em 111 d.C. e Trajano. A carta dirigida ao imperador Trajano trata das torturas que os cristãos são submetidos pelos pretensos crimes. Entre eles está o seguinte:

“…[os cristãos] têm como hábito reunir-se em uma dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição…” (Plínio, Epístola 97).

É interessante ressaltar alguns detalhes nesta carta. Plínio relata fatos históricos importantíssimos tais como a igreja em expansão, e a adoração ao seu fundador – Cristo – “como se fosse um deus” (Christo quase deo). Veja que ele não procura negar a existência histórica de Jesus.

Tácito

Cornélio Tácito (55-117), um dos mais famosos historiadores romanos, governador da Ásia em 112 A.D.,genro de Júlio Agrícola que foi governador da Grã-Bretanha, escreveu o seguinte sobre Cristo:

O fundador da seita foi Crestus, executado no tempo de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos. Essa superstição perniciosa, controlada por certo tempo, brotou novamente, não apenas em toda a Judéia… mas também em toda a cidade de Roma…” (Tácito, “Anais” XV,44).

O contexto desta carta trata sobre o incêndio criminoso de Roma. Nero mandara incendiar Roma e usou os cristãos como bode expiatório. Tácito apesar de não ser simpatizante do cristianismo, confirma, entretanto, fatos históricos importantíssimos tais como: um personagem histórico chamado “Crestos” (Cristo), sua igreja, sua morte e a expansão do cristianismo no primeiro século. Ele tão somente confirma o que já sabíamos através dos relatos evangélicos. (Lucas 3,1).

Outros testemunhos seculares ao Jesus histórico incluem:

Talo (52 d.C),o historiador samaritano é um dos primeiros escritores gentios a mencionar Cristo indiretamente. Tentando dar uma explicação natural para as trevas que ocorreram na crucificação de Jesus, diz:
O mundo inteiro foi atingido por uma profunda treva; as pedras foram rasgadas por um terremoto, muitos lugares na Judéia e outros distritos foram afetados. Esta escuridão Talos, no terceiro livro de sua História, chama, como me parece sem razão, um eclipse do Sol.

Tanto os escritos de Talo, como de Flêgão, não existem mais, alguns fragmentos foram preservados nos escritos de Júlio Africano (220 d.C)
Mara Bar-Serapião – 73 d.C (?), um sírio escrevendo ao seu filho Serapião sobre a busca da sabedoria, menciona a Cristo como sábio, embora não o mencione pelo nome, mas apenas como “rei dos judeus”. Diz ele:
Que vantagem tem os judeus executando seu sábio rei?…O rei sábio não morreu; ele vive nos ensinos que deu.”

Tertuliano, jurista e teólogo em sua defesa do Cristianismo menciona uma correspondência entre Tibério e Pôncio Pilatos sobre Jesus (Apologia,2).
Justino, o Mártir, filósofo cristão ao escrever ao imperador Antonino Pio desafia o imperador a consultar os arquivos imperiais deixados por Pilatos sobre a morte de Jesus Cristo (Apologia 1.48).
Celso, o filósofo neoplatônico e inimigo ferrenho do cristianismo também menciona Cristo em seus escritos.

No entanto, queremos deixar claro que estas citações não têm a pretensão de provar a identidade de Cristo, se Ele era o Filho de Deus ou não. Elas apenas mostram que os anais da história preservou através de documentos de pessoas não cristãs, a história de um homem que viveu no I século, identificado com o Jesus bíblico. A primeira vista, talvez pareça pouca a quantidade de informações que temos sobre Jesus, mas se confrontarmos Jesus Cristo com as inúmeras figuras indefinidas da história antiga, é surpreendente a quantidade de informações que ainda temos sobre Ele. Se porventura fossemos reconstituir a vida de Jesus a partir destes pequenos relatos, teríamos o suficiente para saber quem foi Jesus. Ora, eles nos dão a informação básica sobre ele: um homem que viveu no I século, chamado Cristo, Filho de uma mulher judia, operador de milagres que reuniu em torno de si vários seguidores que o adoravam como Deus. Este homem foi crucificado sob o governo de Pôncio Pilatos. É claro que muitas partes dentro dessas passagens como, por exemplo, em Josefo e Tibério, são até admissíveis de interpolações. Mas o caráter anticristão de seus autores é uma prova incontestável de sua veracidade. Plínio, Tibério e muito menos Luciano de Samosata não poderiam jamais ser acusados de falsidade. Portanto, negar a confiabilidade de todas essas fontes que citam Jesus na base de algumas insignificantes interpolações seria menosprezar de resto toda a história antiga.

publicado por: Pr. Alexandre R. de Souza
Bibliografia: O autor deste texto – É um dos fundadores do CACP, graduado em história e professor de religiões. Prof. João Flávio Martinez


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Para refletir

"A distinção entre as ações virtuosas e pecaminosas foi gravada pelo Senhor no coração de todos os homens". João Calvino

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